• Da Redação

Dois meses após chuvas, moradores ainda esperam auxílios do Recife e de Jaboatão

A comunidade de Jardim Monte Verde, entre os municípios, foi o local em que morreu mais gente. Foram mais de 20 pessoas e, num único ponto, foram 17

Do G1 PE

Foto: Reprodução/TV Globo


A tragédia das chuvas que mataram mais de 100 pessoas ainda não acabou para milhares de pessoas que ainda esperam auxílio do poder público para se reerguer. A comunidade de Jardim Monte Verde, entre o Recife e Jaboatão dos Guararapes, foi o local em que morreu mais gente. Foram mais de 20 pessoas e, num único ponto, foram 17.


Se trata da Rua Alto do Parnaioca. Na região, as ruas têm placa de Recife. O CEP também é da capital pernambucana e a coleta de lixo é feita pela capital. Tem sido assim há décadas, há várias gerações.


Após a tragédia, no entanto, os moradores foram confrontados com a informação de que, na verdade, as casas, que foram completamente destruídas, ficavam em Jaboatão. Isso é parte do porquê até esta quinta-feira (28), exatos dois meses após a tragédia de 28 de maio, dezenas de famílias não receberam sequer um centavo a que têm direito.


"São muitos papéis. Só de interdição da casa, foram duas vezes. Aqui, a gente tem cadastro realizado desde 13 de junho, e nenhuma resposta, até agora. A gente sempre foi Recife. CEP do Recife, se você olhar as placas das ruas, são todas do Recife. Na hora da tragédia, disseram que é Jaboatão. Na verdade, a gente está sem pai. Órfãos de dois pais", afirma o supervisor Almir Gonçalves, ainda desabrigado após a destruição da própria casa.


O auxílio cobrado pelos moradores é de R$ 1,5 mil pagos pelo governo do estado. Para quem mora em Jaboatão, há o acréscimo de mais R$ 1,5 mil para quem precisou se alojar em abrigos públicos. Na cidade, ainda há 11 pessoas num abrigo na Igreja Obra de Maria, no Zumbi do Pacheco, mesmo dois meses após a perda das casas.


Para quem mora no Recife, são mais R$ 1 mil, sem a necessidade de abrigamento. Em todos os casos, trata-se uma espécie de indenização para que as pessoas que perderam absolutamente tudo possam se recuperar.


Os valores só são pagos a pessoas em situação de vulnerabilidade, que são inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), do governo federal. Um dos primeiros problemas enfrentados pelos moradores foi a inscrição em si. Agora, mesmo cadastrados, sequer veem a cor do dinheiro que serviria para sobreviver.


"Tudo que entra aqui é Recife, Jaboatão não entra. Do dia 28 de maio para cá, a gente virou Jaboatão. A verdade é que a gente, além de perder metade da nossa família e todas as nossas coisas, está perdendo nossa dignidade, por estar mendigando um direito, que é obrigação do estado e da prefeitura. Isso é humilhação", diz a agente comunitária de saúde Francisca Ramos.


O auxiliar de topografia Denis Estêvão perdeu as pessoas mais importantes da vida dele: o pai, a mãe e a esposa, além de vários parentes. Foram 12 mortos na família dele, que é a mesma de Francisca Ramos. Sobraram ele e os filhos. Diferentemente dos outros, que apenas achavam, ele, de fato, mora no Recife.


O casal morava de aluguel pago por um auxílio moradia. O benefício, que deveria ser temporário, já era pago há mais de 20 anos para a esposa dele. Ela também recebia o antigo Bolsa Família, atual Auxílio Brasil. A esposa estava na casa de uma tia quando a barreira deslizou e matou a família. Ele estava em casa com os filhos. A residência, por sorte, não foi atingida.


Com o falecimento da esposa, os direitos foram bloqueados, quando, segundo ele, deveriam ter sido transferidos para o pai da família.


"Eu me cadastrei no CadÚnico no Recife. Meus filhos estão comigo, mas, até agora, nada de auxílio. O benefício era da minha esposa e deveria passar para mim. Fazia 20 anos que ela recebia o auxílio moradia, e ela faleceu. Estava há 20 anos esperando por uma casa. Morreu sem ver", afirmou.


Sandy Ramos, de 18 anos, é estudante de técnica em enfermagem. Perdeu 12 pessoas da família, incluindo a irmã, a engenheira civil Thais Regina Ramos Feitosa, de 31 anos, que dormia quando foi soterrada. Para a irmã enlutada, a sensação é de abandono.


"Eles jogam para um lado e para o outro e deixam a gente no meio do nada. Já estamos sem casa, sem acolhimento de nada. Desde o dia em que aconteceu eles vêm aqui, fazem vários e vários cadastros e a gente não recebe nada. Faz dois meses, já, e a gente é jogado, tirando de onde não tem para poder sobreviver", declarou.


O vendedor Adriano Gonçalves é um dos que foram surpreendidos pela alteração da cidade em que mora. Nascido e criado em Jardim Monte Verde, sempre soube que era do Recife. A mudança, na teoria, não mudaria em nada a rotina dele. Na prática, virou um transtorno.


"Estamos vivendo um verdadeiro descaso pelas prefeituras do Recife e de Jaboatão. Eu moro aqui há 38 anos e, até então, achava que era do Recife, mas atualmente estamos morando numa situação indefinida, não sabemos se é Jaboatão ou Recife. Fomos direcionados a fazer um cadastro pela prefeitura de Jaboatão e não recebemos nada", disse.


Respostas

O governo de Pernambuco, por meio de nota, disse que todos os municípios inseridos na primeira etapa de pagamento do auxílio, entre eles Jaboatão e Recife, já receberam os recursos previstos. Em todo o estado, foram destinados R$ 125.229.395,67 a 82.871 famílias desabrigadas, desalojadas ou que tiveram perdas materiais por conta dos temporais em 34 localidades.


Na nota, no entanto, não é especificado a situação dos moradores de Jardim Monte Verde que, até o momento, não receberam o dinheiro.


Outros 29 municípios afetados pelas chuvas do início de julho ainda estão em fase de cumprimento dos requisitos legais para receberem os recursos previstos, segundo o estado.


Questionada pela reportagem, a prefeitura do Jaboatão afirmou que 363 famílias receberam auxílio municipal de R$ 1,5 mil.


A prefeitura do Recife, por sua vez, informou que mais de 17,6 mil famílias receberam o auxílio e que há 40 mil pessoas cadastradas pela Defesa Civil do município. Dúvidas podem ser resolvidas pelo telefone 0800.281.0313.


A prefeitura informou que as demarcações dos municípios são estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), georreferenciamento que estabelece as ruas e localidades para destinação dos recursos.


"Um total de 1824 famílias do bairro do Ibura já receberam o benefício do AME, com benefício direto a 7.296 pessoas e investimentos da ordem de R$ 4.5 milhões. Após as chuvas, a Defesa Civil concedeu 225 auxílios moradia para os moradores de Jardim Monte Verde e 232 para famílias da Vila dos Milagres", disse a gestão.


A administração municipal também disse que vai fazer obras, ainda no segundo semestre de 2022, em locais severamente atingidos por deslizamentos de barreiras: ruas Monte Pascoal, Pico da Bandeira e Chapada do Araripe, em Monteverde; Rua Paralela/Milagres, nos Milagres; e Padre Antônio Prado, no Córrego do Jenipapo.


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